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A realidade é imaginada

sexta-feira, março 26th, 2010

Tradução livre do artigo em https://www.adbusters.org/blogs/blackspot-blog/reality-imagined.html que o Ivan LP me enviou há algum tempo.


A curiosa interação entre nossa imaginação e a realidade externa dá credibilidade ao argumento de que as discussões sobre o ambiente mental são o futuro do ativismo. Ao proteger o nosso ambiente mental nós mudamos a realidade externa mais rápido do que quaisquer ações diretas. Mas argumentar esse ponto no mundo materialista, secular e científico de hoje exige a coragem de imaginar uma maneira diferente de pensar.

Trezentos e setenta anos atrás, René Descartes sentou em uma cadeira confortável, com um castiçal sobre a mesa e os seus pés aquecidos por uma lareira. Fechando os olhos, deu asas à sua imaginação. “O que posso saber com certeza”, ele perguntou, “se eu duvidar de tudo?”

A filosofia moderna começou nesse momento, com Descartes nos levando através de uma série de experimentos de pensamento em que a rejeição de todo o conhecimento dúbio o leva a descobrir a única verdade cognoscível, famosamente expressa em “Cogito, ergo sum”: penso, logo existoA liberdade de imaginar e de duvidar de toda a sabedoria convencional e verdades tradicionais foi, assim, o primeiro passo na construção da nossa visão moderna de mundo.

A primazia da imaginação na construção da filosofia moderna não pode ser negada. Uma conhecida crítica da experiência da imaginação de Descartes é que ela separou a mente do corpo e construiu uma barreira entre o mundo interno de pensamentos e o mundo exterior da realidade. Esta separação mente-corpo ocorre em Descartes por causa de sua vontade de aceitar apenas o que é absolutamente cognoscível. Para provar que a mente comete erros e não pode ser acreditada, ele utiliza sua imaginação para interagir e falsificar a realidade externa.

Tomemos, por exemplo, um momento ímpar em que Descartes imagina robôs andando pelas ruas. Perto do fim da sua Segunda Meditação ele escreve, “se eu olhar para fora da janela e vir homens atravessando a praça, como acabei de fazer, eu normalmente direi que vejo os próprios homens… No entanto, vejo algo mais do que chapéus e casacos que poderiam esconder autômatos? Eu julgo que são homens. E então uma coisa que eu pensei que estava vendo com meus olhos é, de fato, apreendido unicamente pela faculdade de julgamento, que está em minha mente.” Neste estranho momento de apreensão, vendo um homem mas imaginando que ele seja um autômato, Descartes quer certeza e rejeita a evidência dos seus olhos pois ela pode ser influenciada pelas andanças de sua mente.

Mas e se ele não quisesse certeza, tivesse posto de lado o princípio da não-contradição, e aceitado que o que ele viu primeiro como homens eram mais tarde autômatos e então homens novamente? Em outras palavras, e se nós afirmássemos a posição que a imaginação é constitutiva da realidade, não como uma força corruptora, mas como um aspecto indispensável?

Oxalá Descartes tivesse sabido como imaginar com os olhos abertos. O poder de nossa imaginação é tão grande que, mesmo sem a ajuda de drogas alucinógenas, podemos optar por ver coisas que não estão presentes ou alterar a cor de um objeto que é (como documentou fenomenologicamente Edmund Husserl). Da mesma forma, escreve Martin Heidegger em Ser e Tempo, os nossos humores colorem o mundo que nos rodeia. Por exemplo, em um dia ruim parece que o mundo é mais escuro, as árvores estão chorando e as nuvens fazendo caretas.Mas, se de repente recebermos boas notícias, o mundo se ilumina e as nuvens parecem mais rostos sorridentes que caretas ameaçadoras. Assim, se os nossos humores estão sendo influenciadas artificialmente - através da publicidade, por exemplo -, podemos esperar que a nossa realidade externa também seja influenciada. Do ponto de vista do ambientalismo mental a preocupação não é com o impacto da imaginação sobre a realidade externa, mas com o impacto da realidade externa na imaginação.

Temos de afastar imediatamente a noção de que o nosso ambiente mental é único para cada indivíduo. Assim como nós compartilhamos o nosso ambiente natural, também compartilhamos nosso ambiente mental, que é formado através da cultura que consumimos – os programas de televisão a que assistimos, os sites que freqüentamos e os símbolos e conceitos que compõem os nossos pensamentos. (Heidegger se refere a este aspecto compartilhado como nosso “eles-eu”.) Assim, o ambiente mental não é algo inteiramente dentro de nós, mas em vez disso, algo que está fora de nosso controle completo e é compartilhado por uma cultura. O perigo, e oportunidade, é óbvio. Se não há uma divisão estrita entre meu mundo interior e o mundo exterior e se não estou em completo controle sobre o meu mundo interno, então a forma como o mundo aparece para mim é contestável.

Em outras palavras, se nos envolvermos em um ativismo de ambientalismo mental, isso não precisa ser entendido como uma política de isolamento, ou uma tentativa de nos livrarmos do imperativo de “ação direta”. Em vez disso, o desenvolvimento de uma outra forma de pensamento que coloca o papel da imaginação de volta em destaque e nega o direito das corporações de influenciar nosso ambiente mental pode ser a estratégia mais eficaz de insurreição cultural no século XXI, pois influencia diretamente a manifestação de nosso ambiente natural.

Micah Branco é editor colaborador da Adbusters e ativista independente. Ele mora em Berkeley, Califórnia, e está atualmente escrevendo um livro sobre o futuro do ativismo.www.micahmwhite.com ou micah (a) adbusters.org

Aron Belinky, sobre Consumo Consciente

terça-feira, novembro 11th, 2008

A TV Cultura está transmitindo ao vivo, online, entrevistas e painéis sobre Responsabilidade Social. Essas conversas estão acontecendo no stand da emissora na conferência ExpoManagement 2008.

Uma dessas entrevistas foi com Aron Belinky, do Instituto Akatu, falando sobre consumo consciente. Fui avisada pela @belcolucci, no twitter, e liguei logo para uma amiga, a Tati, que estaria certamente interessada. Como ela não poderia assistir, fiz uma transcrição da conversa para referência futura. Até que ficou bom! Perdoem as frases pela metade, mas a transmissão também estava cortada. Se alguém estava assistindo e tem algo a modificar ou complementar, por favor deixe um comentário. O texto em caracteres comuns reflete o que o Aron falou, as frases em itálico são perguntas da entrevistadora, comentários meus, ou o que estava no chat.

Para ver mais transmissões ao vivo bacanas lá da paulicéia, inclusive do programa Roda Viva, fique de olho em @tvcultura. A @tvbrasil também indica, via twitter, os destaques da programação da emissora carioca.

O que é o consumo consciente?

Consumo consciente não é só frugalidade e redução. O Akatu acha que o consumo é parte essencial da vida  e não pode ser visto como um mal. Nosso consumo impacta o mundo, nossas decisões geram efeitos positivos e negativos. Há que ter consciência dos impactos e colocá-los a serviço do que achamos que é melhor: não só o individual mas o coletivo. Social, ambiental, cultural. Perceber o consumo como uma forma de cidadania.

(Mostram vídeo sobre pequenas mudanças de atitude. Falando sobre quantidade de embalagens, sacola reutilizável. Entrevista com uma pessoa da Akatu mostrando um carrinho de supermercado e as embalagens nele. O plástico demora para se decompor na natureza. (o vídeo de baixo mostra a entrevistadora e Aron vendo o vídeo).

Aron fica impressionado com o bom exemplo da moça no supermercado.

Quando pensamos nos pequenos gestos, no supermercado, há um tempo atrás, uns 3 ou 4 anos atrás, era impossível achar alguém que usasse sacolas reutilizáveis. A mudança tem sido rápida, não é mais et quem traz sacola de casa. Os ets mesmo tiram as caixas de papelao da pasta de dente, compram a granel, ou colocam frutas diferentes numa caixa, pesam em separado. As pessoas olham esquisito. O dia que não me olharem esquisito no supermercado vou estranhar. Também a escolha dos produtos: produtos orgânicos, empresas socialmente responsáveis, menos embalagens. Copinhos 300ml x garrafão de água, embalagens retornáveis, etc. Há soluções mirabolantes e óbvias. Às vezes faltam informações, às vezes faltam oportunidades.

Qual a nota do brasileiro como consumidor consciente?

Quando começamos a medir isso, usamos uma régua de acordo com o nosso ideal. Ninguém é 100% eficiente. Identificamos características e desenvolvemos uma ferramenta, o teste do consumo consciente (13 perguntas), que testamos com várias classes de consumidor. Classificamos em 4 segmentosÇ indiferentes, iniciantes, engajados, conscientes. Na última pesquisa, em 2006, tivemos 33% entre conscientes e engajados (5%, 28%) e 54% iniciantes, 8% indiferentes. O Brasil então, nessa métrica, tem 1/3 de consumidores com bom comportamento. Fechar torneira, apagar a luz, são coisas automáticas, comportamento de economia, tipicamente coisa de iniciantes. Um outro grupo são os comportamentos de planejamento, visão a longo prazo: pedir nota fiscal, planejar compras. Existe um benefício justificado: preço, garantia. O benefício porém vem a longo prazo. Mais presenta nos engajados. Os conscientes têm comportamento de solidariedade, os benefícios são coletivos. Compartilhar informações sobre produtos, procurar que os outros são conscientes. O benefício é mudar o comportamento alheio para melhorar a vida comum. Reciclagem, por exemplo. Isso é bem correlacionado na pesquisa.

Tem relação com sexo, educação, renda?

Achamos que encontraríamos uma forte correlação, mas não foi verificado. Tem uma relação. Mas não há zero consumidores conscientes nas camadas D e E. Consciência não é exclusividade dos ricos nem dos educados. Isso foi muito positivo. Deu pra perceber que conseguimos passar a mensagem por outros canais que não necessariamente a escola. Isso é bom, há uma questão de tempo “os adultos estão estragados, a criança educa o adulto”. É verdade, mas se formos esperar 20, 30 anos.

Mas a gente vê adulto levando bronca de criança por atitudes erradas.

Isso acontece, mas o contrário também. Passei no farol, uma menina deixou cair uma embalagem de cachorro quente, a mãe brigou. Pagar esse mico faz parte da nossa missão como consumidores conscientes. Ou a gente corre o risco de ser mal interpretado ou ninguém vai saber nada. O cara da mangueira lavando a calçada, dá pra falar com ele. Falei com o vigia do prédio, a água vai faltar pra todo mundo. “Já cansei de pedir pro síndico uma mangueira que fecha”: o faxineiro já estava consciente.

(Mais um vídeo: sobre desperdício de água. A pessoa que usa o esguicho para lavar a calçada usa o esguicho por 15 minutos, 280 litros de água. Preguiça? Dona Berenice transforma lixo de folhas em adubo. Usa água da máquina de lavar roupa para limpar o jardim. Acumula roupa até o limite para lavar na  máquina, e a quantidade certa de sabão para não ter que enxaguar muito.)

Por falar em esguicho… A água por exemplo, as atitudes são simples.

Interessante é reparar no que a gente não vê.  A água é gasta em coisas que não vemos. 1 kg de carne, 15-30 mil litros de água para produzir (boi bebe, frigorífico, etc). Desperdiçar alimentos também é desperdiçar água. Banho de chuveiro: a quantidade de água para gerar energia elétrica é maior que a que gastamos pro banho. 150 litros de água num banho de 10 minuots, 140-300 litros de água pra energia elétrica que poderiam ser economizados usando energia solar. Há oportunidades invisíveis de ter consumo consciente. Outro lado é a questão do dinheiro, se traduzir para as pessoas o que não está na planilha de custo, a externalidade. O preço do lixo que vem junto com a água. Na planilha de custo do fabricante entra a matéria-prima, mas não o custo do lixo, que é da sociedade. Para ele, se o consumidor paga o preço da embalagem a mais, isso não importa para ele. Enquanto não houver taxas sobre o resíduo final, será difícil para o consumidor entender. Etiqueta de CO2, de lixo.

O consumidor busca saber sobre os produtos, as empresas?

Cada vez mais. 77% dos consumidores têm alto interesse sobre RSE. Em 2006 vimos que 34% disseram que pagariam mais por um produto ambientalmente correto. Na hora h isso não acontece. Dois detalhes. Num teste de opção de produto. 50 centavos contra 70. 85% pagariam 70 centavos. Testamos para vários produtos, inclusive celulares. Pensamos que nas faixas mais altas de preço as pessoas recuariam. Mesmo sabendo que na hora H as pessoas não fazem isso, claramente isso pode ser interpretado como um critério de desempate. O consumidor frente a produtos de preço e qualidade similares, vai desempatar usando critérios de consumo consciente (RSE, ambiental).

A aposta tem sido que há um interesse cada vez maior do consumidor sobre RSE. Interesse e busca de informações, dos 77% dos consumidores que querem saber sobre RSE, 24% vão atrás da informação, os outros 53% não vão atrás da informação.

(Mais um vídeo, com som baixo. Algo sobre lâmpadas!)

Pessoal participando por meio do chat.

A gente tem que estar atento às pessoas que estão engajadas. Por exemplo, aquilo que eu falei da embalagem, tem o famoso exemplo do orgânico que vem na bandejinha de isopor. Tem solução, tem que implementar.

[Comentário de Marcos]
O sistema capitalista estimula o consumo o tempo inteiro. Como convencer uma pessoa pobre a não utilizar o mesmo modelo de consumo dos ricos. Ele vai deixar de usar um tênis Nike, como o rico, pelo bem da humanidade? O exemplo não deveria partir do governo e, principalmente, das elites?

O governo e as elites podem dar o exemplo?

Todo mundo quer ser feliz e vai ser feliz comprando as coisas da tv e dos filmes. Todo mundo já está percebendo que tem um engodo nessa história. A campanha priceless do mastercard que já está há 5 anos, já mostra que tranqueiras e bens não vão te tornar melhor. Outra coisa relevante é comprar o penúltimo modelo de celular. Todo mundo já percebeu que sempre vai ter o penúltimo. Não depende do governo, as pessoas estão percebendo que tem algo errado, tá claro que consumir não é a solução, mas por agora é uma angústia não resolvida. O que vai mudar é a gente descobrir o que a gente valoriza. O tempo no shopping ou o tempo com os amigos? O exemplo do 11 de setembro: ninguém ligou pro corretor de ações, as pessoas ligaram pras famílias, porque as relações humanas são o que fica. Por que somos obtusos a ponto de não perceber isso enquanto vivos? Acreditar é o primeiro passo.

Infelizmente o tempo acabou…

Um último comentário que acho que é interessante no âmbito deste evento. Acho que hoje vemos uma banalizaçao da palavra ssustentabilidade e o risco de desgaste, o consumidor percebe isso, a gente percebe que a expectativa do consumidor continua alta mas ao mesmo tempo se percebe um ceticismo maior, o quanto os consumidores acreditam nas empresas tem diminuído há 3 anos. Os consumidores dizem que o Estado deveria obrigar as empresas a serem responsáveis. O recado é claro, as empresas devem ir nessa direção. A outra coisa é que os consumidores além de fazer mudanças individuais têm que fazer pressão. Em Portugal o relógio de luz anda ao contrário também, por causa de uma regulamentação que faz as casas que têm energia solar devolverem a energia à rede, vendendo energia para a cidade, com isso se fazem menos usinas, menos inundações, não tem mistério! Como se dobra a eficiência de um automóvel? Se colocam duas pessoas dentro! Há muitas possibilidades, temos que cobrar soluções e compartilhar idéias.

#açãosocialrj

sexta-feira, setembro 19th, 2008
Instigados pelo Rômulo, em dezembro de 2007 e janeiro de 2008 alguns twitteiros (@opiumseed, @paulocoimbra, @garradini, @maffalda, @tatianarocha, @caribe) fizeram a #açãosocialrj, com a idéia de usar o twitter como ferramenta de voluntariado. Fizemos duas visitas a um abrigo de meninos em São Gonçalo, uma delas com foco na higiene bucal com a doação de kits de escovação pela Sanifill através do Caribé.

Na época, uma das idéias era usar os conhecimentos do pessoal para ajudar (1) na elaboração de um site melhor para a instituição, incluindo newsletter online, desenhos dos meninos, etc, sempre atentando às necessidades da instituição e à visão do diretor Eduardo, e (2) se a sala de informática da instituição abrisse novamente, dar aos residentes noções básicas de uso da internet.

Por falta de tempo (e provavelmente pela própria natureza distraída e hiperativa das pessoas que participam em mídias sociais), nosso projeto está parado. Mas como diz o meu mentor Dennis, “voluntário desocupado nós não queremos, tem que ser gente ocupada mesmo!”, acho que já é tempo de lançar uma convocatória na forma de algumas idéias que apresento a seguir.

[1] Formar um grupo de trabalho para fazer sites para instituições do Rio e arredores. Isso incluiria:

[a] o desenvolvimento de uma metodologia específica (talvez já exista, questão de pesquisar) para levantamento das necessidades dos clientes sem fim lucrativos. Esse modelo deveria, idealmente, ser documentado para que outros grupos possam replicar a ação.

[b] a criação de sites que sejam simples mas atendam às especificidades das instituições, que sejam fáceis de manter pelo corpo de funcionários (e à prova de sobrinhos).

[c] O grupo de trabalho poderá contar com um sistema de cadastro de voluntários onde algumas das tarefas são presenciais e outras não, para que os envolvidos possam estimar o tempo estimado que vão dedicar, e termos uma “linha de montagem” eficiente. Exemplos de tarefas presenciais: visitar instituições para tirar fotos e entrevistar os diretores, ser palestrante, dar mini-cursos. Exemplos de tarefas não presenciais: entrevistar por telefone, desenvolver site, formular apostila, revisar site/apostila, tratamento de fotos, etc.

[2] Possivelmente um mini-curso sobre criação de conteúdo, escolha de fotos, ferramentas online grátis, etc. (Com apostila ou tutorial online)

[b] Para as instituições que disponibilizam o uso de internet para crianças, a criação de um curso de “como não ser um mané online”.

[3] Uma alternativa é engajar alguns do grupo no Comitê de Democratização da Informática. Tenho informações que me foram passadas pela Rachel, posso disponibilizar para quem quiser.

Este é um proto-proto-proto-projeto, estou lançando a idéia para ouvir sugestões! Estou também pensando em levar esta discussão ao #blogcamprj, dia 27 de setembro.

Sejamos nós os nós.

quarta-feira, junho 25th, 2008

Este é um texto sobre comunidade, ou melhor, o senso de comunidade. Ele deveria começar com um parágrafo sobre como só as pessoas do interior/de antigamente/os nossos avós sabiam o que era a boa vizinhança, e espinafrando as invenções modernas/a pressa/as grandes cidades porque reforçam a noção de individualidade e ninguém mais tem tempo para nada.

Mas isso é só parcialmente verdade. As redes sociais (no sentido sociológico-acadêmico-offline-enquanto-conceito) andam baqueadas, mas as pessoas ainda pertencem a grupos. Os amigos do futebol, da academia, do trabalho, os coleguinhas os filhos, os vizinhos de prédio, a galera do twitter e os ex-colegas de faculdade formam comunidades que, mesmo informais, têm laços mais ou menos firmes. E repare que em todas elas tem sempre os agitadores, os “nós”, aquela pessoa que conhece e apresenta todo mundo e vive inventando atividades para a galera.

Longe de mim querer inventar regras e estatutos para o que se chamava amizade. A idéia é só reconhecer as comunidades da quais você faz parte e dar aquele empurrãozinho para que as coisas funcionem melhor para todos. Porque a sociedade precisa de redes para sustentá-la, porque ter amigos é econômico e saudável, e porque a gente quer ser mais feliz.

E amigo é bom porque é uma coisa que vem em todo tipo de embalagem e com mil e uma utilidades. Dá para fazer um monte de coisas. Organizar um almoço na casa de alguém, sair para beber, ir morar com dois ou três amigos e rachar o aluguel, indicar amigos para trabalhos bacanas, ajudar a educar e mimar os filhos dos outros, arrumar um grupo de brincadeiras para os próprios filhos, discutir/questionar/conversar coisas mais profundas que a novela, falar/fofocar/criticar coisas tão rasas quanto a Caras, ouvir confidências, segurar a barra nas horas difíceis, fazer exercício, dividir despesas com alguma compra grande ou fazer companhia no supermercado, viajar, fundar um clube de trocas, fazer trabalho voluntário, assistir a filmes bons, dar carona, fazer um clube do livro informal onde todos indicam leituras a todos… as variações são muitas, dá para fazer muitas coisas mais com amigos. Mas algumas dessas sugestões eu deixo para outros blogs…