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Aron Belinky, sobre Consumo Consciente

terça-feira, novembro 11th, 2008

A TV Cultura está transmitindo ao vivo, online, entrevistas e painéis sobre Responsabilidade Social. Essas conversas estão acontecendo no stand da emissora na conferência ExpoManagement 2008.

Uma dessas entrevistas foi com Aron Belinky, do Instituto Akatu, falando sobre consumo consciente. Fui avisada pela @belcolucci, no twitter, e liguei logo para uma amiga, a Tati, que estaria certamente interessada. Como ela não poderia assistir, fiz uma transcrição da conversa para referência futura. Até que ficou bom! Perdoem as frases pela metade, mas a transmissão também estava cortada. Se alguém estava assistindo e tem algo a modificar ou complementar, por favor deixe um comentário. O texto em caracteres comuns reflete o que o Aron falou, as frases em itálico são perguntas da entrevistadora, comentários meus, ou o que estava no chat.

Para ver mais transmissões ao vivo bacanas lá da paulicéia, inclusive do programa Roda Viva, fique de olho em @tvcultura. A @tvbrasil também indica, via twitter, os destaques da programação da emissora carioca.

O que é o consumo consciente?

Consumo consciente não é só frugalidade e redução. O Akatu acha que o consumo é parte essencial da vida  e não pode ser visto como um mal. Nosso consumo impacta o mundo, nossas decisões geram efeitos positivos e negativos. Há que ter consciência dos impactos e colocá-los a serviço do que achamos que é melhor: não só o individual mas o coletivo. Social, ambiental, cultural. Perceber o consumo como uma forma de cidadania.

(Mostram vídeo sobre pequenas mudanças de atitude. Falando sobre quantidade de embalagens, sacola reutilizável. Entrevista com uma pessoa da Akatu mostrando um carrinho de supermercado e as embalagens nele. O plástico demora para se decompor na natureza. (o vídeo de baixo mostra a entrevistadora e Aron vendo o vídeo).

Aron fica impressionado com o bom exemplo da moça no supermercado.

Quando pensamos nos pequenos gestos, no supermercado, há um tempo atrás, uns 3 ou 4 anos atrás, era impossível achar alguém que usasse sacolas reutilizáveis. A mudança tem sido rápida, não é mais et quem traz sacola de casa. Os ets mesmo tiram as caixas de papelao da pasta de dente, compram a granel, ou colocam frutas diferentes numa caixa, pesam em separado. As pessoas olham esquisito. O dia que não me olharem esquisito no supermercado vou estranhar. Também a escolha dos produtos: produtos orgânicos, empresas socialmente responsáveis, menos embalagens. Copinhos 300ml x garrafão de água, embalagens retornáveis, etc. Há soluções mirabolantes e óbvias. Às vezes faltam informações, às vezes faltam oportunidades.

Qual a nota do brasileiro como consumidor consciente?

Quando começamos a medir isso, usamos uma régua de acordo com o nosso ideal. Ninguém é 100% eficiente. Identificamos características e desenvolvemos uma ferramenta, o teste do consumo consciente (13 perguntas), que testamos com várias classes de consumidor. Classificamos em 4 segmentosÇ indiferentes, iniciantes, engajados, conscientes. Na última pesquisa, em 2006, tivemos 33% entre conscientes e engajados (5%, 28%) e 54% iniciantes, 8% indiferentes. O Brasil então, nessa métrica, tem 1/3 de consumidores com bom comportamento. Fechar torneira, apagar a luz, são coisas automáticas, comportamento de economia, tipicamente coisa de iniciantes. Um outro grupo são os comportamentos de planejamento, visão a longo prazo: pedir nota fiscal, planejar compras. Existe um benefício justificado: preço, garantia. O benefício porém vem a longo prazo. Mais presenta nos engajados. Os conscientes têm comportamento de solidariedade, os benefícios são coletivos. Compartilhar informações sobre produtos, procurar que os outros são conscientes. O benefício é mudar o comportamento alheio para melhorar a vida comum. Reciclagem, por exemplo. Isso é bem correlacionado na pesquisa.

Tem relação com sexo, educação, renda?

Achamos que encontraríamos uma forte correlação, mas não foi verificado. Tem uma relação. Mas não há zero consumidores conscientes nas camadas D e E. Consciência não é exclusividade dos ricos nem dos educados. Isso foi muito positivo. Deu pra perceber que conseguimos passar a mensagem por outros canais que não necessariamente a escola. Isso é bom, há uma questão de tempo “os adultos estão estragados, a criança educa o adulto”. É verdade, mas se formos esperar 20, 30 anos.

Mas a gente vê adulto levando bronca de criança por atitudes erradas.

Isso acontece, mas o contrário também. Passei no farol, uma menina deixou cair uma embalagem de cachorro quente, a mãe brigou. Pagar esse mico faz parte da nossa missão como consumidores conscientes. Ou a gente corre o risco de ser mal interpretado ou ninguém vai saber nada. O cara da mangueira lavando a calçada, dá pra falar com ele. Falei com o vigia do prédio, a água vai faltar pra todo mundo. “Já cansei de pedir pro síndico uma mangueira que fecha”: o faxineiro já estava consciente.

(Mais um vídeo: sobre desperdício de água. A pessoa que usa o esguicho para lavar a calçada usa o esguicho por 15 minutos, 280 litros de água. Preguiça? Dona Berenice transforma lixo de folhas em adubo. Usa água da máquina de lavar roupa para limpar o jardim. Acumula roupa até o limite para lavar na  máquina, e a quantidade certa de sabão para não ter que enxaguar muito.)

Por falar em esguicho… A água por exemplo, as atitudes são simples.

Interessante é reparar no que a gente não vê.  A água é gasta em coisas que não vemos. 1 kg de carne, 15-30 mil litros de água para produzir (boi bebe, frigorífico, etc). Desperdiçar alimentos também é desperdiçar água. Banho de chuveiro: a quantidade de água para gerar energia elétrica é maior que a que gastamos pro banho. 150 litros de água num banho de 10 minuots, 140-300 litros de água pra energia elétrica que poderiam ser economizados usando energia solar. Há oportunidades invisíveis de ter consumo consciente. Outro lado é a questão do dinheiro, se traduzir para as pessoas o que não está na planilha de custo, a externalidade. O preço do lixo que vem junto com a água. Na planilha de custo do fabricante entra a matéria-prima, mas não o custo do lixo, que é da sociedade. Para ele, se o consumidor paga o preço da embalagem a mais, isso não importa para ele. Enquanto não houver taxas sobre o resíduo final, será difícil para o consumidor entender. Etiqueta de CO2, de lixo.

O consumidor busca saber sobre os produtos, as empresas?

Cada vez mais. 77% dos consumidores têm alto interesse sobre RSE. Em 2006 vimos que 34% disseram que pagariam mais por um produto ambientalmente correto. Na hora h isso não acontece. Dois detalhes. Num teste de opção de produto. 50 centavos contra 70. 85% pagariam 70 centavos. Testamos para vários produtos, inclusive celulares. Pensamos que nas faixas mais altas de preço as pessoas recuariam. Mesmo sabendo que na hora H as pessoas não fazem isso, claramente isso pode ser interpretado como um critério de desempate. O consumidor frente a produtos de preço e qualidade similares, vai desempatar usando critérios de consumo consciente (RSE, ambiental).

A aposta tem sido que há um interesse cada vez maior do consumidor sobre RSE. Interesse e busca de informações, dos 77% dos consumidores que querem saber sobre RSE, 24% vão atrás da informação, os outros 53% não vão atrás da informação.

(Mais um vídeo, com som baixo. Algo sobre lâmpadas!)

Pessoal participando por meio do chat.

A gente tem que estar atento às pessoas que estão engajadas. Por exemplo, aquilo que eu falei da embalagem, tem o famoso exemplo do orgânico que vem na bandejinha de isopor. Tem solução, tem que implementar.

[Comentário de Marcos]
O sistema capitalista estimula o consumo o tempo inteiro. Como convencer uma pessoa pobre a não utilizar o mesmo modelo de consumo dos ricos. Ele vai deixar de usar um tênis Nike, como o rico, pelo bem da humanidade? O exemplo não deveria partir do governo e, principalmente, das elites?

O governo e as elites podem dar o exemplo?

Todo mundo quer ser feliz e vai ser feliz comprando as coisas da tv e dos filmes. Todo mundo já está percebendo que tem um engodo nessa história. A campanha priceless do mastercard que já está há 5 anos, já mostra que tranqueiras e bens não vão te tornar melhor. Outra coisa relevante é comprar o penúltimo modelo de celular. Todo mundo já percebeu que sempre vai ter o penúltimo. Não depende do governo, as pessoas estão percebendo que tem algo errado, tá claro que consumir não é a solução, mas por agora é uma angústia não resolvida. O que vai mudar é a gente descobrir o que a gente valoriza. O tempo no shopping ou o tempo com os amigos? O exemplo do 11 de setembro: ninguém ligou pro corretor de ações, as pessoas ligaram pras famílias, porque as relações humanas são o que fica. Por que somos obtusos a ponto de não perceber isso enquanto vivos? Acreditar é o primeiro passo.

Infelizmente o tempo acabou…

Um último comentário que acho que é interessante no âmbito deste evento. Acho que hoje vemos uma banalizaçao da palavra ssustentabilidade e o risco de desgaste, o consumidor percebe isso, a gente percebe que a expectativa do consumidor continua alta mas ao mesmo tempo se percebe um ceticismo maior, o quanto os consumidores acreditam nas empresas tem diminuído há 3 anos. Os consumidores dizem que o Estado deveria obrigar as empresas a serem responsáveis. O recado é claro, as empresas devem ir nessa direção. A outra coisa é que os consumidores além de fazer mudanças individuais têm que fazer pressão. Em Portugal o relógio de luz anda ao contrário também, por causa de uma regulamentação que faz as casas que têm energia solar devolverem a energia à rede, vendendo energia para a cidade, com isso se fazem menos usinas, menos inundações, não tem mistério! Como se dobra a eficiência de um automóvel? Se colocam duas pessoas dentro! Há muitas possibilidades, temos que cobrar soluções e compartilhar idéias.

Bituca e Guimba não podem ir à praia

terça-feira, maio 27th, 2008

Não, eles não são compositores de samba-enredo. Bituca e guimba são duas palavras (até bonitinhas!) para designar o filtro de um cigarro fumado (nada bonitinho).

Bitucona, guimbona.

Foto: MarkHaertl

Confesso que não participo da tentativa de demonização dos fumantes. Sei que cigarro faz mal, mas tenho cá minhas simpatias por um ou outro fumante mais charmoso. O que acaba mesmo com qualquer boa-vontade da minha parte é ver alguém jogando bituca no chão. São bilhões de pedacinhos aparentemente inofensivos de acetato de celulose descartados inadequadamente ao redor do mundo a cada ano. Além de enfeiar a cidade e as praias, as bitucas terminam, quase invariavelmente, nos rios e oceanos. Cada guimba contamina aproximadamente 8 litros de água, matando microorganismos, e animais maiores são fatalmente enganados pelas supostas minhoquinhas.

É um problema fácil de resolver: não jogue as guimbas no chão, oras. As lixeiras urbanas em geral têm uma placa de metal onde o cigarro pode ser apagado antes de ser descartado. Uma alternativa um pouco mais trabalhosa é carregar seu próprio cinzeiro portátil, que pode ser um tubo de filme fotográfico, um estojinho de fio-dental, este cinzeiro lindo da Zippo ou esta caixinha australiana que faz piada visual com a palavra em inglês para guimba, butt (bumbum). E esses dias vi duas garotas apagarem os cigarros de um jeito inusitado: apertando a parte próxima ao filtro para expulsar a brasinha (para não ter que apagar o cigarro contra uma superfície) e carregando a bituca por mais alguns passos até achar uma lixeira.

Minha curiosidade é saber se o bom exemplo e a aura cool das pessoas que têm consideração para com o meio-ambiente e a limpeza urbana vão ser tão contagiosos quanto o foram, cada um a seu tempo, o tabagismo e o anti-tabagismo. O que você acha?

Cuidado com a lavadinha!

quarta-feira, abril 23rd, 2008

Então você é uma pessoa simples, que se preocupa com o meio ambiente, lembra do Dia da Terra e tal. Sendo coerente com suas crenças, você quer gastar o seu dinheiro em produtos que promovem a sustentabilidade. Claro que há várias empresas idôneas que lhe vão oferecer produtos bacanas.

Mas também há empresas - grandes, médias, pequenas, não importa - que praticam o que é chamado de greenwashing, a “lavadinha verde”. Essa ‘lavadinha” consiste em ludibriar os consumidores quanto às práticas ambientais de uma companhia ou os benefícios ambientais de um produto ou serviço.

A empresa de marketing ambiental TerraChoice, além de cunhar a definição acima para um termo que vem sendo usado desde o início dos anos 90, publicou uma pesquisa e classificou a prática de greenwashing em seis modalidades diferentes.

Estes são os seis pecados de greenwashing, acompanhados das perguntas que você deve fazer aos produtos na gôndola do supermercado. (Alerta: se os produtos realmente responderem, procure um médico):

Pecado da Compensação: por exemplo, eletrônicos que economizam energia mas contêm materiais perigosos.

Pergunte-se: o produto se apóia só em uma ou duas questões ambientais e ignora outras que também podem ser importantes? Todo produto tem vários impactos ambientais e produtos realmente verdes tentam solucionar todos eles.

Pecado da Falta de Provas: por exemplo, shampoos dizendo ser “orgânicos”, mas sem certificação.

Pergunte-se: o produto oferece provas das alegações na embalagem ou no site da companhia? Sites e certificações respeitadas podem ser evidência suficiente.

Pecado da Imprecisão: por exemplo, produtos alegando ser 100% naturais quando muitas substâncias naturais são nocivas, como arsênico e formaldeído.

Pergunte-se: se você pensar bem, o que a alegação (”bom para o meio ambiente”, por exemplo) realmente quer dizer? O produto detalha todos os seus impactos ambientais, incluindo a quantidade de embalagem, o processo de fabricação e como o produto é descartado?

Pecado da Irrelevância: por exemplo, produtos que alegam não conter uma substância que já é proibida por lei, ou produtos de papel que vêm com um símbolo e a palavra “reciclável”.

Pergunte-se: as alegações do produto valem para todos os produtos similares? Várias coisas são “recicláveis”…

Pecado da Mentira: por exemplo, produtos que falsamente afirmam serem certificados por uma organização internacional.*

Pergunte-se: o fabricante realmente pode provar que é certificado (o nome está no site da associação que providenciou o selo)?

Pecado do Mal Menor: por exemplo, cigarros orgânicos ou pesticidas “ambientais”.*

Pergunte-se: estão tentando fazer você se sentir “verde” em relação a um produto que tradicionalmente não tem essa reputação?

É preciso um pouco mais de espírito crítico em todos nós, afinal, o ditado não é “lavou, tá verde”.


* Para saber mais, visite o site da TerraChoice. Eles publicaram essa pesquisa em dezembro de 2007. Os pecados marcados com um asterisco são raros, cometidos por menos de 1% das companhias.