A TV Cultura está transmitindo ao vivo, online, entrevistas e painéis sobre Responsabilidade Social. Essas conversas estão acontecendo no stand da emissora na conferência ExpoManagement 2008.
Uma dessas entrevistas foi com Aron Belinky, do Instituto Akatu, falando sobre consumo consciente. Fui avisada pela @belcolucci, no twitter, e liguei logo para uma amiga, a Tati, que estaria certamente interessada. Como ela não poderia assistir, fiz uma transcrição da conversa para referência futura. Até que ficou bom! Perdoem as frases pela metade, mas a transmissão também estava cortada. Se alguém estava assistindo e tem algo a modificar ou complementar, por favor deixe um comentário. O texto em caracteres comuns reflete o que o Aron falou, as frases em itálico são perguntas da entrevistadora, comentários meus, ou o que estava no chat.
Para ver mais transmissões ao vivo bacanas lá da paulicéia, inclusive do programa Roda Viva, fique de olho em @tvcultura. A @tvbrasil também indica, via twitter, os destaques da programação da emissora carioca.
O que é o consumo consciente?
Consumo consciente não é só frugalidade e redução. O Akatu acha que o consumo é parte essencial da vida e não pode ser visto como um mal. Nosso consumo impacta o mundo, nossas decisões geram efeitos positivos e negativos. Há que ter consciência dos impactos e colocá-los a serviço do que achamos que é melhor: não só o individual mas o coletivo. Social, ambiental, cultural. Perceber o consumo como uma forma de cidadania.
(Mostram vídeo sobre pequenas mudanças de atitude. Falando sobre quantidade de embalagens, sacola reutilizável. Entrevista com uma pessoa da Akatu mostrando um carrinho de supermercado e as embalagens nele. O plástico demora para se decompor na natureza. (o vídeo de baixo mostra a entrevistadora e Aron vendo o vídeo).
Aron fica impressionado com o bom exemplo da moça no supermercado.
Quando pensamos nos pequenos gestos, no supermercado, há um tempo atrás, uns 3 ou 4 anos atrás, era impossível achar alguém que usasse sacolas reutilizáveis. A mudança tem sido rápida, não é mais et quem traz sacola de casa. Os ets mesmo tiram as caixas de papelao da pasta de dente, compram a granel, ou colocam frutas diferentes numa caixa, pesam em separado. As pessoas olham esquisito. O dia que não me olharem esquisito no supermercado vou estranhar. Também a escolha dos produtos: produtos orgânicos, empresas socialmente responsáveis, menos embalagens. Copinhos 300ml x garrafão de água, embalagens retornáveis, etc. Há soluções mirabolantes e óbvias. Às vezes faltam informações, às vezes faltam oportunidades.
Qual a nota do brasileiro como consumidor consciente?
Quando começamos a medir isso, usamos uma régua de acordo com o nosso ideal. Ninguém é 100% eficiente. Identificamos características e desenvolvemos uma ferramenta, o teste do consumo consciente (13 perguntas), que testamos com várias classes de consumidor. Classificamos em 4 segmentosÇ indiferentes, iniciantes, engajados, conscientes. Na última pesquisa, em 2006, tivemos 33% entre conscientes e engajados (5%, 28%) e 54% iniciantes, 8% indiferentes. O Brasil então, nessa métrica, tem 1/3 de consumidores com bom comportamento. Fechar torneira, apagar a luz, são coisas automáticas, comportamento de economia, tipicamente coisa de iniciantes. Um outro grupo são os comportamentos de planejamento, visão a longo prazo: pedir nota fiscal, planejar compras. Existe um benefício justificado: preço, garantia. O benefício porém vem a longo prazo. Mais presenta nos engajados. Os conscientes têm comportamento de solidariedade, os benefícios são coletivos. Compartilhar informações sobre produtos, procurar que os outros são conscientes. O benefício é mudar o comportamento alheio para melhorar a vida comum. Reciclagem, por exemplo. Isso é bem correlacionado na pesquisa.
Tem relação com sexo, educação, renda?
Achamos que encontraríamos uma forte correlação, mas não foi verificado. Tem uma relação. Mas não há zero consumidores conscientes nas camadas D e E. Consciência não é exclusividade dos ricos nem dos educados. Isso foi muito positivo. Deu pra perceber que conseguimos passar a mensagem por outros canais que não necessariamente a escola. Isso é bom, há uma questão de tempo “os adultos estão estragados, a criança educa o adulto”. É verdade, mas se formos esperar 20, 30 anos.
Mas a gente vê adulto levando bronca de criança por atitudes erradas.
Isso acontece, mas o contrário também. Passei no farol, uma menina deixou cair uma embalagem de cachorro quente, a mãe brigou. Pagar esse mico faz parte da nossa missão como consumidores conscientes. Ou a gente corre o risco de ser mal interpretado ou ninguém vai saber nada. O cara da mangueira lavando a calçada, dá pra falar com ele. Falei com o vigia do prédio, a água vai faltar pra todo mundo. “Já cansei de pedir pro síndico uma mangueira que fecha”: o faxineiro já estava consciente.
(Mais um vídeo: sobre desperdício de água. A pessoa que usa o esguicho para lavar a calçada usa o esguicho por 15 minutos, 280 litros de água. Preguiça? Dona Berenice transforma lixo de folhas em adubo. Usa água da máquina de lavar roupa para limpar o jardim. Acumula roupa até o limite para lavar na máquina, e a quantidade certa de sabão para não ter que enxaguar muito.)
Por falar em esguicho… A água por exemplo, as atitudes são simples.
Interessante é reparar no que a gente não vê. A água é gasta em coisas que não vemos. 1 kg de carne, 15-30 mil litros de água para produzir (boi bebe, frigorífico, etc). Desperdiçar alimentos também é desperdiçar água. Banho de chuveiro: a quantidade de água para gerar energia elétrica é maior que a que gastamos pro banho. 150 litros de água num banho de 10 minuots, 140-300 litros de água pra energia elétrica que poderiam ser economizados usando energia solar. Há oportunidades invisíveis de ter consumo consciente. Outro lado é a questão do dinheiro, se traduzir para as pessoas o que não está na planilha de custo, a externalidade. O preço do lixo que vem junto com a água. Na planilha de custo do fabricante entra a matéria-prima, mas não o custo do lixo, que é da sociedade. Para ele, se o consumidor paga o preço da embalagem a mais, isso não importa para ele. Enquanto não houver taxas sobre o resíduo final, será difícil para o consumidor entender. Etiqueta de CO2, de lixo.
O consumidor busca saber sobre os produtos, as empresas?
Cada vez mais. 77% dos consumidores têm alto interesse sobre RSE. Em 2006 vimos que 34% disseram que pagariam mais por um produto ambientalmente correto. Na hora h isso não acontece. Dois detalhes. Num teste de opção de produto. 50 centavos contra 70. 85% pagariam 70 centavos. Testamos para vários produtos, inclusive celulares. Pensamos que nas faixas mais altas de preço as pessoas recuariam. Mesmo sabendo que na hora H as pessoas não fazem isso, claramente isso pode ser interpretado como um critério de desempate. O consumidor frente a produtos de preço e qualidade similares, vai desempatar usando critérios de consumo consciente (RSE, ambiental).
A aposta tem sido que há um interesse cada vez maior do consumidor sobre RSE. Interesse e busca de informações, dos 77% dos consumidores que querem saber sobre RSE, 24% vão atrás da informação, os outros 53% não vão atrás da informação.
(Mais um vídeo, com som baixo. Algo sobre lâmpadas!)
Pessoal participando por meio do chat.
A gente tem que estar atento às pessoas que estão engajadas. Por exemplo, aquilo que eu falei da embalagem, tem o famoso exemplo do orgânico que vem na bandejinha de isopor. Tem solução, tem que implementar.
[Comentário de Marcos]
O sistema capitalista estimula o consumo o tempo inteiro. Como convencer uma pessoa pobre a não utilizar o mesmo modelo de consumo dos ricos. Ele vai deixar de usar um tênis Nike, como o rico, pelo bem da humanidade? O exemplo não deveria partir do governo e, principalmente, das elites?
O governo e as elites podem dar o exemplo?
Todo mundo quer ser feliz e vai ser feliz comprando as coisas da tv e dos filmes. Todo mundo já está percebendo que tem um engodo nessa história. A campanha priceless do mastercard que já está há 5 anos, já mostra que tranqueiras e bens não vão te tornar melhor. Outra coisa relevante é comprar o penúltimo modelo de celular. Todo mundo já percebeu que sempre vai ter o penúltimo. Não depende do governo, as pessoas estão percebendo que tem algo errado, tá claro que consumir não é a solução, mas por agora é uma angústia não resolvida. O que vai mudar é a gente descobrir o que a gente valoriza. O tempo no shopping ou o tempo com os amigos? O exemplo do 11 de setembro: ninguém ligou pro corretor de ações, as pessoas ligaram pras famílias, porque as relações humanas são o que fica. Por que somos obtusos a ponto de não perceber isso enquanto vivos? Acreditar é o primeiro passo.
Infelizmente o tempo acabou…
Um último comentário que acho que é interessante no âmbito deste evento. Acho que hoje vemos uma banalizaçao da palavra ssustentabilidade e o risco de desgaste, o consumidor percebe isso, a gente percebe que a expectativa do consumidor continua alta mas ao mesmo tempo se percebe um ceticismo maior, o quanto os consumidores acreditam nas empresas tem diminuído há 3 anos. Os consumidores dizem que o Estado deveria obrigar as empresas a serem responsáveis. O recado é claro, as empresas devem ir nessa direção. A outra coisa é que os consumidores além de fazer mudanças individuais têm que fazer pressão. Em Portugal o relógio de luz anda ao contrário também, por causa de uma regulamentação que faz as casas que têm energia solar devolverem a energia à rede, vendendo energia para a cidade, com isso se fazem menos usinas, menos inundações, não tem mistério! Como se dobra a eficiência de um automóvel? Se colocam duas pessoas dentro! Há muitas possibilidades, temos que cobrar soluções e compartilhar idéias.
1 palpite só ↓
um consumidor consiente deve ter consiencia e pensar nos seus atos ajudar o mundo.ole so….
• O Brasil desperdiça 14 milhões de toneladas de alimentos por ano. Trinta por cento das hortaliças são perdidas entre a produção e a distribuição (industrialização, armazenagem e transporte). E outras milhares de toneladas são esbanjadas dentro de casa.
• Cada tonelada de papel economizada preserva 20 eucaliptos. Se 1 milhão de pessoas decidirem usar o verso do papel para escrever e desenhar, a cada mês serão preservadas florestas suficientes para recobrir 18 campos de futebol.
• O Brasil recicla só 15% do plástico descartado. O resto acaba no lixo, onde leva mais de um século para se degradar. Embalagens de plástico ou outros materiais representam um terço do lixo doméstico nacional. Se recusarmos todas as embalagens supérfluas que nos forem oferecidas ao longo de um mês, vamos evitar o gasto de 0,5 kg de petróleo - o suficiente para mover um automóvel por quase 10 km.
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